Introdução
A Parte 1 da NBR 5419 é a base conceitual de toda a norma: define termos, explica como uma descarga atmosférica causa danos, justifica por que proteger uma estrutura e introduz os dois conceitos que atravessam as outras três partes — o Nível de Proteção (NP) e as Zonas de Proteção contra Raios (ZPR). Não é a parte que um projetista consulta para dimensionar um SPDA, mas é a que define o vocabulário e a lógica que as Partes 2, 3 e 4 vão usar. Por isso, mudanças aqui — mesmo sutis — se propagam para o resto da norma.
Estrutura mantida, com reorganização de conteúdo
A espinha dorsal da Parte 1 de 2015 segue presente em 2026: escopo, referências normativas, termos e definições, parâmetros da corrente da descarga atmosférica, danos devido a descargas atmosféricas, necessidade e vantagem econômica da proteção, medidas de proteção e critérios básicos para proteção de estruturas (incluindo NP e ZPR). Essa sequência lógica — do fenômeno físico à decisão de proteger — não muda.
O que muda é a granularidade. As tabelas centrais da edição de 2015 — os valores máximos e mínimos dos parâmetros da corrente de descarga atmosférica correspondentes a cada nível de proteção, e os efeitos/danos por tipo de estrutura — continuam presentes na edição de 2026, mas aparecem reorganizadas dentro da nova estrutura de seções, com ajustes de redação e, em pelo menos um ponto da seção de critérios básicos (item 8), uma tabela nova em relação à edição anterior.
O Nível de Proteção (NP) já existia — a novidade é o que se apoia nele
Vale um esclarecimento que costuma gerar confusão: o conceito de "Nível de Proteção (NP)" não é novo de 2026 — ele já estava na Parte 1 desde 2015, no item 8.2 ("Níveis de proteção contra descargas atmosféricas — NP"). O que a edição de 2015 também mantinha, e a de 2026 abandona, é o uso paralelo do termo "classe do SPDA" como sinônimo — usado sobretudo na Parte 3. Comparando as duas transcrições, "classe do SPDA" não aparece mais nenhuma vez na Parte 3 de 2026, enquanto "nível de proteção" aparece dezenas de vezes. Na prática, é uma unificação terminológica: onde antes conviviam "classe" e "NP" como rótulos equivalentes (a própria norma de 2015 trazia uma tabela de correspondência entre os dois), a partir de 2026 só existe "nível de proteção". Isso significa que memoriais descritivos e laudos que ainda falam em "SPDA classe III", por exemplo, precisam de ajuste de nomenclatura para refletir a terminologia única — mesmo que o valor técnico por trás do rótulo continue o mesmo.
Novos usos entram no radar da análise
Um ponto amplamente citado por especialistas que acompanharam a revisão é a inclusão explícita de sistemas fotovoltaicos, carregadores de veículos elétricos e instalações de telefonia móvel entre os elementos que devem ser considerados na avaliação de uma estrutura — tecnologias que, em 2015, praticamente não apareciam no texto porque tinham penetração residual no mercado brasileiro. Isso não altera a lógica de risco em si (ainda descrita em detalhe na Parte 2), mas amplia o que um projetista precisa levantar como característica da estrutura antes de calcular o risco: hoje, um telhado com placas solares ou uma garagem com carregador de VE é, para efeitos da norma, um elemento que precisa entrar na conta.
Glossário consolidado
Outra mudança estrutural amplamente reportada é a reorganização da lista de termos e definições (Seção 3): a proposta da revisão é reunir o vocabulário técnico em ordem alfabética e mantê-lo consistente entre as quatro partes, reduzindo o problema comum na edição de 2015 de um mesmo termo aparecer com nuances de definição diferentes dependendo da parte consultada. Se você trabalha com mais de uma parte da norma ao mesmo tempo — o que é a regra, não a exceção, em qualquer projeto real de SPDA — essa consolidação tende a reduzir ambiguidade na hora de fundamentar um laudo.
O que isso muda na prática
Para quem já tem um laudo ou memorial baseado na edição de 2015, a Parte 1 isoladamente raramente é motivo de reprovação — ela não define valores de dimensionamento. Mas é o primeiro lugar a checar quando um laudo mais antigo é atualizado, por três motivos: a terminologia (classe vs. nível de proteção) precisa ser corrigida; novas características da estrutura (fotovoltaico, VE, telecom) precisam ser levantadas antes de refazer a análise de risco na Parte 2; e as definições revisadas na Seção 3 são a referência que vai valer se houver qualquer disputa de interpretação sobre um laudo.
Próximo passo
A Parte 1 estabelece o vocabulário; é na Parte 2 que a decisão concreta — "esta estrutura precisa de SPDA, e de qual nível?" — é calculada. É lá que praticamente todas as mudanças numéricas da revisão de 2026 realmente se manifestam.
Fontes e referências: ABNT NBR 5419-1:2015 e ABNT NBR 5419-1:2026 (comparação direta de conteúdo); IEC 62305-1:2024; reportagens técnicas sobre a publicação da revisão (O Setor Elétrico, mar. 2026).