NBR 5419-3:2026 — o que muda no projeto físico do SPDA

As mudanças da NBR 5419-3:2026 no projeto físico do SPDA — armadura protendida, ensaio de continuidade elétrica e aço cobreado como alternativa ao cobre.

Solicitar orçamento

Introdução

A Parte 3 é a que a maioria dos projetistas e instaladores usa no dia a dia: captação, descidas, aterramento, materiais e distâncias de segurança do SPDA externo. É também a parte cujo conteúdo mais dobrou em volume de exemplos e tabelas na revisão de 2026 — comparando a edição de 2015 com a transcrição da edição de 2026, o número de tabelas normativas quase triplica (de 14 para 42) e o de figuras também (de 11 para 39). Isso por si só já indica que menos coisas ficaram "a critério do projetista": mais situações específicas ganharam uma referência gráfica ou numérica direta.

"Classe do SPDA" sai de cena — só sobra "Nível de Proteção"

Este ponto costuma ser mal explicado: o conceito de nível de proteção (NP) já existia desde 2015, e a Parte 3 de 2015 já usava "nível de proteção" como base técnica — mas convivia com o termo "classe do SPDA" como rótulo equivalente (a própria norma trazia uma tabela de correspondência entre "classe" e "nível de proteção"). Comparando o texto das duas edições, confirmamos que a expressão "classe do SPDA" não aparece mais nenhuma vez na Parte 3 de 2026, enquanto "nível de proteção" aparece dezenas de vezes ao longo do documento. Os valores técnicos por trás de cada nível — raio da esfera rolante, dimensão da malha, distância entre descidas — não mudam por causa disso; é uma unificação de nomenclatura, não um novo critério de dimensionamento. Mas laudos e memoriais que ainda usam "classe I/II/III/IV" precisam atualizar a terminologia para refletir a edição vigente.

Estruturas com armadura protendida ganham restrição explícita

Uma mudança concreta e nova que localizamos diretamente no texto da revisão está no item 5.4.5.2: estruturas compostas por armaduras protendidas não podem ser utilizadas como elemento natural do SPDA, e a proteção dessas estruturas precisa ser estudada especificamente para evitar impacto direto e centelhamentos perigosos entre os condutores do SPDA e os elementos protendidos.

Isso não é inteiramente inédito — a edição de 2015 já trazia uma nota recomendando "estudos específicos" para concreto protendido e vedando o uso dos cabos de aço protendido como condutores de corrente. O que a edição de 2026 faz é elevar essa recomendação de nota informativa para cláusula numerada e normativa, com redação mais direta ("não podem ser utilizadas"). Para estruturas industriais, coberturas de grandes vãos, pontes e edifícios com lajes protendidas — cada vez mais comuns —, isso deixa de ser uma boa prática recomendada e passa a ser um requisito explícito a verificar em qualquer laudo.

Ensaio de continuidade elétrica ganha um anexo normativo próprio

Esta é, na nossa leitura, a mudança mais relevante da Parte 3 para quem faz inspeção e manutenção de SPDA. A edição de 2026 traz um Anexo F normativo inteiramente dedicado a ensaios de continuidade elétrica, com procedimentos específicos para diferentes situações: continuidade das armaduras quando usadas simultaneamente como subsistema de descida e de aterramento naturais, continuidade das armaduras dos pilares quando usadas só como descida natural, continuidade das armaduras de fundação, verificação comprobatória de elementos naturais e ensaio de continuidade de condutores de descida não naturais — cada um com procedimento de ensaio e instrumentos indicados.

Na edição de 2015, esse tipo de verificação existia na prática, mas sem um procedimento padronizado dentro da própria norma — cada inspetor ou perito aplicava seu próprio método. Com um anexo normativo detalhando o passo a passo, a inspeção periódica de continuidade deixa de ser um julgamento técnico informal e passa a ter um procedimento de referência exigível. Instalações que hoje passam por inspeção "visual" ou por métodos não documentados tendem a não atender ao novo padrão.

Materiais: aço cobreado ganha equivalência ao cobre

Um ponto confirmado tanto na comparação de texto quanto na fala pública de representantes da comissão que revisou a norma: a edição de 2026 passa a reconhecer o aço cobreado com desempenho equivalente ao cobre comum para componentes de SPDA, dentro das seções mínimas especificadas. Na prática, isso abre uma alternativa de material com custo geralmente menor do que o cobre puro, sem exigir bitolas maiores para compensar — uma diferença relevante para orçamento de projetos novos, embora não seja, isoladamente, um motivo de não conformidade para instalações existentes em cobre.

Quando uma instalação existente deixa de estar conforme

Reunindo os pontos confirmados: um SPDA com laudo baseado em "classe" e sem atualização terminológica ainda funciona fisicamente, mas o laudo em si está desatualizado. Uma estrutura com armadura protendida usada como captor ou descida natural sem o estudo específico do item 5.4.5.2 está em desacordo com a cláusula normativa vigente. E uma instalação sem histórico de ensaio de continuidade elétrica documentado — ou com inspeções feitas por método não padronizado — não atende ao novo Anexo F, mesmo que o SPDA esteja fisicamente íntegro.

Some-se a isso o efeito indireto da Parte 2: se a reavaliação de risco com o novo Ng do Anexo F normativo indicar um nível de proteção mais exigente do que o originalmente projetado, a Parte 3 é onde esse novo nível se traduz em mais captores, mais descidas e, possivelmente, reforço do sistema de aterramento.

Próximo passo

O SPDA externo, mesmo perfeito, só resolve parte do problema — descargas atmosféricas próximas ou em linhas de energia continuam gerando surtos que se propagam para dentro da estrutura. É a Parte 4 que trata da proteção dos sistemas elétricos e eletrônicos internos, e é lá que está a mudança mais dramática, em volume, de toda a revisão.


Fontes e referências: comparação direta do conteúdo da ABNT NBR 5419-3:2015 e da ABNT NBR 5419-3:2026 (item 5.4.5.2, Anexo F normativo, terminologia "classe do SPDA" vs. "nível de proteção"); declarações da Comissão de Estudos CE-64:10/ABNT sobre aço cobreado (O Setor Elétrico, mar. 2026); IEC 62305-3:2024.